sexta-feira, 13 de maio de 2011

[48] Palmilho

Inspiro fundo. Reconheço um ar que não é meu. Absorto. Compenetrado, viso a linha do horizonte como se o fim do mundo se tratasse. A brisa marítima que engole as minhas órbitas é fresca e seca como uma ventoinha enferrujada. Palmilho um caminho que não é meu. Porém, não deixa de ser uma pegada com o meu ADN. Rodopio de braços abertos como um patriota desconsolado. Grupos de pessoas cruzam o olhar comigo, desconfiadas. Falando com os meus botões, mando-os dar uma volta e, como não o fazem, dou-a eu. Devoro quilómetros como traças num roupeiro bem frequentado. A velocidade com que ando faz-me questionar se duas pessoas estão a empurrar-me pelas costas. Paro. Olho para trás. Apenas eu. Quem mais? Que estupidez. É apenas ela.

Suado e com o meu casaco pendurado no meu dedo anelar, atraco num banco quezilento circundado de margaridas, que não é meu. Descanso por uns segundos, antes de massacrar o meu interior com mais umas centenas de passos. Limpo o suor com a parte de trás da minha mão esquerda. Gotas de consolo. De inconformismo. De coragem. De agradável devaneio. O sol encandeia. Apressa-se por desaparecer por baixo daquele palito inflamável, que tanta água tem. Desafia-me a acompanhá-lo. Não quero. Algo me faz estar ali. É apenas ela.

Deitando-me numa cama de um quarto que não é o meu, já com o candeeiro aceso, duvido que a este se possa chamar o “descanso do guerreiro”. Não estou numa batalha. Estou numa encruzilhada comigo mesmo, onde não há como voltar atrás. Nunca há. Limpo as poucas lágrimas que caem com a parte de trás da mão direita. Gotas de saudade. De felicidade. De carpe diem. Aperto as mãos, uma contra a outra, unindo o suor com as lágrimas que me escorreram pela face. Alguém separou as minhas mãos e pediu um abraço. Assustado, olho para o lado. Mas não há razão para tal. É apenas ela.

terça-feira, 26 de abril de 2011

[47] Cenários

Sonolento, um pardal esvoaça na cauda de um arco-íris embriagado. As suas penas batem umas contra as outras, criando uma brilhante melodia. Tragos de luz ripostam contra o chão, iluminando pedaços de terra que esbracejam, esperançosos, por uma nova vida. Os abetos, alinhados perpendicularmente na herdade primaveril, balançam suavemente como folhas de papel. Pegadas ordeiras e calculistas definem um caminho. Para o abismo, para o sucesso. Para onde elas quiserem. Para uma barraca abandonada, circundada por plátanos. A taipa, velha e desgastada, reclama por novos donos, assinando por baixo com rachas sinusoidais. Dentro da casa, uma mesa e duas cadeiras de pinho. Húmidas, lascadas e abstractas.

Os protagonistas já lêem o guião. À volta da casa, faz-se um grande alarido. Incomodados com o cheiro melancólico a madeira putrificada, os responsáveis agitam e gesticulam na ânsia de gravar as cenas destinadas. Ao fracasso, ao desespero, ao quase-sucesso, à alegria, à orgásmica explosão de alegria. Torrentes de adrenalina circulam pelas veias de todos os que ali passam, envolvidos ou curiosos. Todos querem ver, tocar, ser mosca, interpretar, adivinhar. A cabine de maquilhagem, os holofotes macabros, a iluminação artificialmente obscura. Tudo a postos para pôr em prática tudo aquilo que foi preparado ao longo de anos a fio.

A verdadeira adrenalina passa pela ignorância especulativa de quem sabe que vai viver algo único sem saber exactamente o quê. A verdadeira emoção arrebatadora é a do inconsciente transformar cenários em conscientes repercussões da nossa vida. A verdadeira magia navega numa luta entre certezas, incertezas, emoções e memórias vividas e provavelmente repetidas. Saber a sua força, a sua fraqueza, a sua capacidade, a sua insolência. Insolubilidade é algo que não existe no meu dicionário. Basta haver uma mesa e duas cadeiras. Mesmo que cheirem a madeira putrificada.

domingo, 17 de abril de 2011

[46] Trilema

Um poeta esfomeado arrebatava a sua inspiração com um dicionário erudito quando esbarrou contra a sua própria muralha. A muralha era de basalto, compacto, robusto e imponente. Nem duas retroescavadoras conseguiriam derrubá-la. A força que o poeta aplicava na sua pena transformava uma emoldurada folha neo-clássica num rabisco amachucado por dois pombos à procura de milho. Antes que os pombos lá pudessem encontrar o que procuravam, pontapeou a folha para longe. Jogando as mãos à cabeça, e atirando alguns cabelos para a secretária de mogno, recostou-se na cadeira e respirou fundo. Olhou à volta, sentindo-se inútil na sua própria existência. Queria que os pombos lhe comessem milho na cabeça. Meneava a cabeça, ansiando por dormir apenas para poder sonhar que aquilo não estava a acontecer.

Não tinha sono. Logo, na pena voltou a agarrar. Iniciou uma viagem pela nova emoldurada folha neo-clássica. Estudou os prós. Estudou os contras. Vislumbrou utopias. Tornou-as passíveis de serem concretizadas. Falou consigo próprio. Discordou do seu discernimento. Criou um novo discernimento. Tornou o “porque não” numa interrogação em vez de numa afirmação. Tornou o “impossível” em “complicado”. Tornou o “arriscado” em “assumido”. A folha estava cheia de ideias, de assunções e de perspectivas imaginárias. O poeta esfomeado viu uma luz ao fundo do túnel. A luz provinha de uma brecha na sua própria muralha. A luz estava lá para ele, esbanjada por um machado ferrugento. Restava abrir ligeiramente mais a brecha para que ele lá pudesse entrar. Mas como? O poeta achava-se sem força para mais.

Mal ele poderia saber que assim que ele, decidido e frontal, se assumisse perante a sua muralha, que ela cairia em pedaços, para lhe provar que o arriscado é possível e que se pode perguntar “porque não?”. Mas acima de tudo, que se pode derrubar a nossa própria muralha sem precisar de duas retroescavadoras. Basta uma viagem ao nosso interior, para a concretizar no exterior. Seja lá onde for.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

[45] Buraco Negro

Estendido ao comprido na minha cama por fazer, miro o tecto lascado como se ali vislumbrasse o céu. A minha retina é arremessada ao tecto com projecções do meu subconsciente, onde identifico locais, atmosferas, tempos e pessoas muito distintas do meu círculo mais próximo. Na parede, o tiquetaque do relógio do tio Patinhas, que rola há quase tantos anos quanto eu, consegue sobrepor-se ao rosno raivoso do autocarro que aqui passa neste momento. A cadência do seu tiquetaquear marca o ritmo de uma vida. Marca a de todos. Mas marca a minha luta. A minha obrigatória destreza, coragem, suplício, pulso, raiva e determinação num capítulo destes.

O coração bate forte contra o colchão e levanta a minha roupa. Concentrando-me em dois ritmos, abano impavidamente a cabeça quando entendo que o coração bate duas vezes enquanto o tio Patinhas só avança um segundo. Ele quer pular bem daqui para fora, mas a segurança da caixa torácica fá-lo respingar, iniciando um calmo processo de resfriamento.

A cabeça dói. Refila entre lóbulos diferentes do cérebro. Ameaçam-se mutuamente, sob pena de castigo e de mais dor para eu aturar. Os lóbulos sobrepõem-se, afastam-se como moscas pulverizadas com veneno, chocam como socialistas com comunistas. Algo altera a minha visão, criando um buraco negro onde vejo o meu próprio coração entrar e afundar-se. Alucinações. Não quero. Não gosto. Fecho os olhos. Assim não verei nada. Bolas. Continuo a ver. Um olho de boi? Poliestireno extrudido? Galata? Tomada de decisão? Sete colinas? Abro os olhos. Um tecto.

Continuo deitado e acção é necessária. Mas o que sei que manterá a acção enquanto houver pilha, é o meu grande amigo tio Patinhas.

terça-feira, 29 de março de 2011

[44] Silêncio

Na escuridão de um quarto abandonado, o silêncio preenche os interstícios da minha alma. Petrificado pela gélida brisa que entra pela janela, um pequeno barulho insere-se nos meus tímpanos como ratos à procura de queijo fresco. Uma frágil luz azul-turquesa brilha no tecto, apesar de arrogantemente poderosa para distribuir uns poucos watts neste bocado de casa rocambolesca. Não muito longe de mim, um suspiro espalha-se no ar como pó soprado de um livro de fábulas de La Fontaine. Seguindo o seu trilho, mas esmagado pelo poder do silêncio que ainda se abatia nas minhas costas fui, pé ante pé, desafiar a cinética de um soalho destruído pelas traças que retiraram prepotentemente camadas de protecção.

Descobrindo a origem do suave suspiro, e intrigantemente inclinando-me na direcção do soalho, a simples rotação da minha rótula parece alterar uma paisagem sonora perfeita. Mas não posso deixar de a desafiar. Ao ajoelhar-me, o suspiro parece chamar-me como uma borboleta pedindo por ajuda para soltar as suas asas. A tentação de descobrir, de viver algo novo, de partilhar novas sensações, espezinha-me como um gigante adormecido de volta da penumbra.

Sentir os teus cabelos finos como crina de cavalo, a tua pele macia como uma pena esbelta e a tua tranquilidade a dormir apenas com um lençol apesar da gélida brisa, encantam-me. Quero acordar-te. Retirar-te desse descanso para te dizer que aqui estou, como nunca estive no meu consciente. Não posso fotografar, limitar-me-ei a tatuar tais segundos na parcela memorizável do meu cérebro.

E aqui se poderia dizer, meus caros, que já poderia acordar depois deste cenário de um conto de fadas. Pois, mas com algum orgulho, com alguma expectativa, vou dizer-vos: “Sim, agora posso ir dormir.”