Um poeta esfomeado arrebatava a sua inspiração com um dicionário erudito quando esbarrou contra a sua própria muralha. A muralha era de basalto, compacto, robusto e imponente. Nem duas retroescavadoras conseguiriam derrubá-la. A força que o poeta aplicava na sua pena transformava uma emoldurada folha neo-clássica num rabisco amachucado por dois pombos à procura de milho. Antes que os pombos lá pudessem encontrar o que procuravam, pontapeou a folha para longe. Jogando as mãos à cabeça, e atirando alguns cabelos para a secretária de mogno, recostou-se na cadeira e respirou fundo. Olhou à volta, sentindo-se inútil na sua própria existência. Queria que os pombos lhe comessem milho na cabeça. Meneava a cabeça, ansiando por dormir apenas para poder sonhar que aquilo não estava a acontecer.
Não tinha sono. Logo, na pena voltou a agarrar. Iniciou uma viagem pela nova emoldurada folha neo-clássica. Estudou os prós. Estudou os contras. Vislumbrou utopias. Tornou-as passíveis de serem concretizadas. Falou consigo próprio. Discordou do seu discernimento. Criou um novo discernimento. Tornou o “porque não” numa interrogação em vez de numa afirmação. Tornou o “impossível” em “complicado”. Tornou o “arriscado” em “assumido”. A folha estava cheia de ideias, de assunções e de perspectivas imaginárias. O poeta esfomeado viu uma luz ao fundo do túnel. A luz provinha de uma brecha na sua própria muralha. A luz estava lá para ele, esbanjada por um machado ferrugento. Restava abrir ligeiramente mais a brecha para que ele lá pudesse entrar. Mas como? O poeta achava-se sem força para mais.
Mal ele poderia saber que assim que ele, decidido e frontal, se assumisse perante a sua muralha, que ela cairia em pedaços, para lhe provar que o arriscado é possível e que se pode perguntar “porque não?”. Mas acima de tudo, que se pode derrubar a nossa própria muralha sem precisar de duas retroescavadoras. Basta uma viagem ao nosso interior, para a concretizar no exterior. Seja lá onde for.

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