Estendido ao comprido na minha cama por fazer, miro o tecto lascado como se ali vislumbrasse o céu. A minha retina é arremessada ao tecto com projecções do meu subconsciente, onde identifico locais, atmosferas, tempos e pessoas muito distintas do meu círculo mais próximo. Na parede, o tiquetaque do relógio do tio Patinhas, que rola há quase tantos anos quanto eu, consegue sobrepor-se ao rosno raivoso do autocarro que aqui passa neste momento. A cadência do seu tiquetaquear marca o ritmo de uma vida. Marca a de todos. Mas marca a minha luta. A minha obrigatória destreza, coragem, suplício, pulso, raiva e determinação num capítulo destes.
O coração bate forte contra o colchão e levanta a minha roupa. Concentrando-me em dois ritmos, abano impavidamente a cabeça quando entendo que o coração bate duas vezes enquanto o tio Patinhas só avança um segundo. Ele quer pular bem daqui para fora, mas a segurança da caixa torácica fá-lo respingar, iniciando um calmo processo de resfriamento.
A cabeça dói. Refila entre lóbulos diferentes do cérebro. Ameaçam-se mutuamente, sob pena de castigo e de mais dor para eu aturar. Os lóbulos sobrepõem-se, afastam-se como moscas pulverizadas com veneno, chocam como socialistas com comunistas. Algo altera a minha visão, criando um buraco negro onde vejo o meu próprio coração entrar e afundar-se. Alucinações. Não quero. Não gosto. Fecho os olhos. Assim não verei nada. Bolas. Continuo a ver. Um olho de boi? Poliestireno extrudido? Galata? Tomada de decisão? Sete colinas? Abro os olhos. Um tecto.
Continuo deitado e acção é necessária. Mas o que sei que manterá a acção enquanto houver pilha, é o meu grande amigo tio Patinhas.

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