sexta-feira, 13 de maio de 2011

[48] Palmilho

Inspiro fundo. Reconheço um ar que não é meu. Absorto. Compenetrado, viso a linha do horizonte como se o fim do mundo se tratasse. A brisa marítima que engole as minhas órbitas é fresca e seca como uma ventoinha enferrujada. Palmilho um caminho que não é meu. Porém, não deixa de ser uma pegada com o meu ADN. Rodopio de braços abertos como um patriota desconsolado. Grupos de pessoas cruzam o olhar comigo, desconfiadas. Falando com os meus botões, mando-os dar uma volta e, como não o fazem, dou-a eu. Devoro quilómetros como traças num roupeiro bem frequentado. A velocidade com que ando faz-me questionar se duas pessoas estão a empurrar-me pelas costas. Paro. Olho para trás. Apenas eu. Quem mais? Que estupidez. É apenas ela.

Suado e com o meu casaco pendurado no meu dedo anelar, atraco num banco quezilento circundado de margaridas, que não é meu. Descanso por uns segundos, antes de massacrar o meu interior com mais umas centenas de passos. Limpo o suor com a parte de trás da minha mão esquerda. Gotas de consolo. De inconformismo. De coragem. De agradável devaneio. O sol encandeia. Apressa-se por desaparecer por baixo daquele palito inflamável, que tanta água tem. Desafia-me a acompanhá-lo. Não quero. Algo me faz estar ali. É apenas ela.

Deitando-me numa cama de um quarto que não é o meu, já com o candeeiro aceso, duvido que a este se possa chamar o “descanso do guerreiro”. Não estou numa batalha. Estou numa encruzilhada comigo mesmo, onde não há como voltar atrás. Nunca há. Limpo as poucas lágrimas que caem com a parte de trás da mão direita. Gotas de saudade. De felicidade. De carpe diem. Aperto as mãos, uma contra a outra, unindo o suor com as lágrimas que me escorreram pela face. Alguém separou as minhas mãos e pediu um abraço. Assustado, olho para o lado. Mas não há razão para tal. É apenas ela.

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