quinta-feira, 25 de agosto de 2011

[54] Bar

Circulo numa rua desprovida de cor e de ritmos. Marco a calçada à cadência de um compasso de um piano. Cheio de sede, entro num bar. O bar estava cheio de almas vazias. Tão vazias como um vácuo de sentimentos e preocupações. Vejo uma mesa livre e, quase sem olhar para o empregado, peço um café cheio. Desdigo-me e peço uma imperial. Sento-me e aguardo enquanto ouço os fanáticos ignorantes falar de futebol ao balcão. Ignoro-os, enquanto a imperial me é colocada à frente, fresca e convidativa num cinzento fim de tarde. No meu bolso, um pedaço de papel rasgado ainda lá morava de um recado incompleto de supermercado. Sempre com a minha caneta preta, começo a rabiscar.

Os meus traços são inconsequentes, circulam como formigas à procura do melhor bocado de pão abandonado. O padrão é abstracto e confuso. Bebo mais um trago da imperial. Penso um pouco. A discussão ao balcão passa para o tema da corrupção e da máfia no futebol. Engraçado. Continuo a rabiscar. Paro de rabiscar. Começo a escrever. O copo da cerveja molhou-me o papel. Raios. Que se lixe. Continuo a escrever. Assusto-me com o facto de alguém entrar e pensar que todos os que ali estão são almas vazias. Não me importo com isso. Sei o que sou. Saberei? Obviamente.

“Todos os dias carrego o teu peso. És leve, mas pesada demais para a minha cabeça. Engordaste com o teu chauvinismo e desapreço. Nem sequer gosto da imperial que sempre saboreei. Mas o que interessa isso? O teu confrangedor silêncio esmaga-me os ombros, esvazia-me a alma cheia de valores e corrói momentos mágicos. O teu sorriso insufla-me o ego, faz-me saltar que nem um louco e destaca-me numa multidão. Quanto custa a imperial, quero ir-me embora daq..” Riscando a última frase agressivamente, amarroto o papel e deixo-o no caixote do lixo enquanto volto a enfrentar a rua, agora ritmada pelos candeeiros que entretanto se acenderam a antecipar a longa e negra noite.

Sem comentários: