Vejo impérios a desabar todos os dias. Impérios sentimentais assentes em colunas de palha, mascaradas de betão armado. Onde toda a base não é mais do que um bloco de gelo pronto a derreter à primeira discussão mais acesa. Onde um simples grito faz cair paredes presas por pregos. A fachada renascentista nada mais é que uma máscara temporária que rapidamente se transforma num bairro de lata recheado de facas prontas a serem distribuídas. As pessoas envolvidas, envenenadas pelo monstro da rotina, tornam-se azedas e impacientes.
Vejo impérios de um, dois, cinco e dez anos a ruir. Hoje em dia, as relações entre um casal são infectadas por arrogâncias insípidas e egocentrismos radicais. O casal está por estar, e se aguentar mais tempo, algo estará mal, algo mudou, algo transformou o que de tão bonito havia. Nunca nos questionamos o porquê de ter sido bonito antes, reduzimo-nos a discutir o fracasso que é agora. O que mudou? Obviamente, quem está entranhado.
O avanço de apenas uma geração muda tudo. Caminhamos num sentido onde o casamento será banalizado e temporariamente mesquinho, contrariando relações sólidas e construídas em conjunto, na geração imediatamente anterior à nossa. Caminhamos num sentido onde nunca mais haverá cartas de amor, haverá e-mails de amor. Onde entregar uma flor é uma “paneleirice”. Onde discutir por um garfo a mais na mesa é claramente justificado. Onde viajar ao outro lado do Mundo por alguém é uma maluquice. Onde dá mais jeito aqui ao pé de casa do que fora da cidade.
O problema passa pelo facto de as relações, hoje em dia, darem jeito. Enquanto tudo for cómodo, não será seguramente feliz. Porque o cómodo não faz brilhar os olhos, não faz rebentar o coração da caixa torácica, não faz corar, não faz ficar sem palavras. Eu sempre preferirei ficar sem palavras do que dizer “amo-te” quando não o sinto: o acto mais cínico, mais cruel e, infelizmente, o mais repetido hoje em dia na nossa sociedade.

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