Apoiava eu os meus braços num peitoril húmido, durante uma terna e morna noite de Verão, quando dei por mim a pensar. Justificar, diria eu melhor. Compreender o que pode moldar pessoas, sociedades, políticas e sistemas socioeconómicos. Como podem ser tomadas decisões tão difíceis sem, aparentemente, haver um arrependimento, um repensar ou um arrepio na espinha. Que força é capaz de nos mover massivamente de um modo inconsciente, mas ao mesmo tempo, decidido?
O verdadeiro combustível do planeta. A maior força alguma vez existente e que suplanta bombas atómicas ou sistemas nucleares, porque se antecipa a elas, é o medo. O medo é o moinho da religião, é a faísca que pode acender uma guerra, é muitas vezes a acendalha da fogueira a que chamamos amor, porque qualquer um de nós tem medo de ficar sozinho. O processo de construção de uma vantagem a partir de uma desvantagem pode passar pela identificação de ameaças a algo precioso para o lado intimidado, para que o moralismo e bons valores venham ao de cima, como um bom azeite num copo de água.
Amedrontar sociedades inteiras traz sempre benefícios a algum dos lados. Quem não se lembra das gripes das aves, da ameaça terrorista espalhada pelo Mundo, do vírus H1N1, da ameaça nuclear japonesa. Poderia aqui enumerar mais casos, onde foram criadas vantagens (em 100% delas, financeiras) onde havia desvantagens (opinião pública), a partir da identificação de ameaças (saúde pública, vidas humanas). Parece-me algo simples e evidente.
Fechei a janela, respirando fundo e franzindo um sobrolho. Sorri. Imaginei este texto a aparecer nas notícias, como um abrir de olhos para a sociedade. Somando um mais um, fazendo com que se tirassem as conclusões correctas. A médio prazo, as farmacêuticas e as fábricas de armamento iriam ter quedas de 200% nos lucros. Seriam convocadas reuniões extraordinárias do G12 com manifestações violentas no exterior dos edifícios. Hum, não. Eu levaria uma carga de porrada primeiro, assinando uma declaração em como assumia que tudo aquilo que eu havia escrito era falso. Pois. O medo.

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