segunda-feira, 29 de agosto de 2011

[55] Ernest

Já dizia Winston Churchill que, mesmo durante os períodos mais negros da 2ª Guerra Mundial, lia um livro todas as noites. Ajudava-o a pensar. Sinistramente reflectindo, vejo que escrever me ajuda a pensar. Como tal, tenho algo em comum com um dos maiores nomes da História Mundial no que toca a literatura e a dinâmica cerebral. Mas quero encontrar algo com que me identifique totalmente. Ernest Hemingway, célebre escritor americano, disse que felicidade em pessoas inteligentes fora das coisas mais raras que conhecera. Concordo. Como escrever ajuda a minha mente a pensar, vou pôr esse exercício em prática para confirmar se concordo na totalidade com tal afirmação.

A inteligência é a faculdade de compreender dados ou acontecimentos, capacidade de raciocínio, de discernir o correcto do errado. Envolve concentração, raciocínio, tranquilidade e genética. Ou seja, ver uma sequência de cálculos num quadro e antecipar o terceiro passo posterior. Antecipação. Soa a calculismo. Não. Identificar a personalidade de uma pessoa através de um olhar instintivo. Perspicácia. Porque não?
Inteligência como capacidade ou talento? Inato ou adquirido, trabalhado? Defendo que é inata, com potencial desenvolvimento através do tempo com adequada estimulação cerebral. Saber identificar problemas. Matemáticos, filosóficos, amorosos. Misturar inteligência com o irracional-impulsivo? Perigoso. Saber identificar. Saberemos separar, agindo por um lado ou outro, como um chip que se liga e que se desliga? Não me parece.

Calma. O que tem isto a ver com felicidade? Tudo, a partir do momento em que uma pessoa, com livre arbítrio, perscruta, identifica e assimila boas opções e não segue o seu caminho. Tudo, quando duas pessoas têm atitudes diferentes no que toca à sua inteligência, desviando caminhos e inundando de cobardia os trilhos da felicidade que ali estão à sua mão.

Ok, Ernest. Sou inteligente e concordo na totalidade. 

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

[54] Bar

Circulo numa rua desprovida de cor e de ritmos. Marco a calçada à cadência de um compasso de um piano. Cheio de sede, entro num bar. O bar estava cheio de almas vazias. Tão vazias como um vácuo de sentimentos e preocupações. Vejo uma mesa livre e, quase sem olhar para o empregado, peço um café cheio. Desdigo-me e peço uma imperial. Sento-me e aguardo enquanto ouço os fanáticos ignorantes falar de futebol ao balcão. Ignoro-os, enquanto a imperial me é colocada à frente, fresca e convidativa num cinzento fim de tarde. No meu bolso, um pedaço de papel rasgado ainda lá morava de um recado incompleto de supermercado. Sempre com a minha caneta preta, começo a rabiscar.

Os meus traços são inconsequentes, circulam como formigas à procura do melhor bocado de pão abandonado. O padrão é abstracto e confuso. Bebo mais um trago da imperial. Penso um pouco. A discussão ao balcão passa para o tema da corrupção e da máfia no futebol. Engraçado. Continuo a rabiscar. Paro de rabiscar. Começo a escrever. O copo da cerveja molhou-me o papel. Raios. Que se lixe. Continuo a escrever. Assusto-me com o facto de alguém entrar e pensar que todos os que ali estão são almas vazias. Não me importo com isso. Sei o que sou. Saberei? Obviamente.

“Todos os dias carrego o teu peso. És leve, mas pesada demais para a minha cabeça. Engordaste com o teu chauvinismo e desapreço. Nem sequer gosto da imperial que sempre saboreei. Mas o que interessa isso? O teu confrangedor silêncio esmaga-me os ombros, esvazia-me a alma cheia de valores e corrói momentos mágicos. O teu sorriso insufla-me o ego, faz-me saltar que nem um louco e destaca-me numa multidão. Quanto custa a imperial, quero ir-me embora daq..” Riscando a última frase agressivamente, amarroto o papel e deixo-o no caixote do lixo enquanto volto a enfrentar a rua, agora ritmada pelos candeeiros que entretanto se acenderam a antecipar a longa e negra noite.

sábado, 13 de agosto de 2011

[53] Medos

Apoiava eu os meus braços num peitoril húmido, durante uma terna e morna noite de Verão, quando dei por mim a pensar. Justificar, diria eu melhor. Compreender o que pode moldar pessoas, sociedades, políticas e sistemas socioeconómicos. Como podem ser tomadas decisões tão difíceis sem, aparentemente, haver um arrependimento, um repensar ou um arrepio na espinha. Que força é capaz de nos mover massivamente de um modo inconsciente, mas ao mesmo tempo, decidido?
O verdadeiro combustível do planeta. A maior força alguma vez existente e que suplanta bombas atómicas ou sistemas nucleares, porque se antecipa a elas, é o medo. O medo é o moinho da religião, é a faísca que pode acender uma guerra, é muitas vezes a acendalha da fogueira a que chamamos amor, porque qualquer um de nós tem medo de ficar sozinho. O processo de construção de uma vantagem a partir de uma desvantagem pode passar pela identificação de ameaças a algo precioso para o lado intimidado, para que o moralismo e bons valores venham ao de cima, como um bom azeite num copo de água.

Amedrontar sociedades inteiras traz sempre benefícios a algum dos lados. Quem não se lembra das gripes das aves, da ameaça terrorista espalhada pelo Mundo, do vírus H1N1, da ameaça nuclear japonesa. Poderia aqui enumerar mais casos, onde foram criadas vantagens (em 100% delas, financeiras) onde havia desvantagens (opinião pública), a partir da identificação de ameaças (saúde pública, vidas humanas). Parece-me algo simples e evidente.

Fechei a janela, respirando fundo e franzindo um sobrolho. Sorri. Imaginei este texto a aparecer nas notícias, como um abrir de olhos para a sociedade. Somando um mais um, fazendo com que se tirassem as conclusões correctas. A médio prazo, as farmacêuticas e as fábricas de armamento iriam ter quedas de 200% nos lucros. Seriam convocadas reuniões extraordinárias do G12 com manifestações violentas no exterior dos edifícios. Hum, não. Eu levaria uma carga de porrada primeiro, assinando uma declaração em como assumia que tudo aquilo que eu havia escrito era falso. Pois. O medo.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

[52] Comodismos

Vejo impérios a desabar todos os dias. Impérios sentimentais assentes em colunas de palha, mascaradas de betão armado. Onde toda a base não é mais do que um bloco de gelo pronto a derreter à primeira discussão mais acesa. Onde um simples grito faz cair paredes presas por pregos. A fachada renascentista nada mais é que uma máscara temporária que rapidamente se transforma num bairro de lata recheado de facas prontas a serem distribuídas. As pessoas envolvidas, envenenadas pelo monstro da rotina, tornam-se azedas e impacientes.
Vejo impérios de um, dois, cinco e dez anos a ruir. Hoje em dia, as relações entre um casal são infectadas por arrogâncias insípidas e egocentrismos radicais. O casal está por estar, e se aguentar mais tempo, algo estará mal, algo mudou, algo transformou o que de tão bonito havia. Nunca nos questionamos o porquê de ter sido bonito antes, reduzimo-nos a discutir o fracasso que é agora. O que mudou? Obviamente, quem está entranhado.

O avanço de apenas uma geração muda tudo. Caminhamos num sentido onde o casamento será banalizado e temporariamente mesquinho, contrariando relações sólidas e construídas em conjunto, na geração imediatamente anterior à nossa. Caminhamos num sentido onde nunca mais haverá cartas de amor, haverá e-mails de amor. Onde entregar uma flor é uma “paneleirice”. Onde discutir por um garfo a mais na mesa é claramente justificado. Onde viajar ao outro lado do Mundo por alguém é uma maluquice. Onde dá mais jeito aqui ao pé de casa do que fora da cidade.

O problema passa pelo facto de as relações, hoje em dia, darem jeito. Enquanto tudo for cómodo, não será seguramente feliz. Porque o cómodo não faz brilhar os olhos, não faz rebentar o coração da caixa torácica, não faz corar, não faz ficar sem palavras. Eu sempre preferirei ficar sem palavras do que dizer “amo-te” quando não o sinto: o acto mais cínico, mais cruel e, infelizmente, o mais repetido hoje em dia na nossa sociedade.