sábado, 13 de agosto de 2011

[53] Medos

Apoiava eu os meus braços num peitoril húmido, durante uma terna e morna noite de Verão, quando dei por mim a pensar. Justificar, diria eu melhor. Compreender o que pode moldar pessoas, sociedades, políticas e sistemas socioeconómicos. Como podem ser tomadas decisões tão difíceis sem, aparentemente, haver um arrependimento, um repensar ou um arrepio na espinha. Que força é capaz de nos mover massivamente de um modo inconsciente, mas ao mesmo tempo, decidido?
O verdadeiro combustível do planeta. A maior força alguma vez existente e que suplanta bombas atómicas ou sistemas nucleares, porque se antecipa a elas, é o medo. O medo é o moinho da religião, é a faísca que pode acender uma guerra, é muitas vezes a acendalha da fogueira a que chamamos amor, porque qualquer um de nós tem medo de ficar sozinho. O processo de construção de uma vantagem a partir de uma desvantagem pode passar pela identificação de ameaças a algo precioso para o lado intimidado, para que o moralismo e bons valores venham ao de cima, como um bom azeite num copo de água.

Amedrontar sociedades inteiras traz sempre benefícios a algum dos lados. Quem não se lembra das gripes das aves, da ameaça terrorista espalhada pelo Mundo, do vírus H1N1, da ameaça nuclear japonesa. Poderia aqui enumerar mais casos, onde foram criadas vantagens (em 100% delas, financeiras) onde havia desvantagens (opinião pública), a partir da identificação de ameaças (saúde pública, vidas humanas). Parece-me algo simples e evidente.

Fechei a janela, respirando fundo e franzindo um sobrolho. Sorri. Imaginei este texto a aparecer nas notícias, como um abrir de olhos para a sociedade. Somando um mais um, fazendo com que se tirassem as conclusões correctas. A médio prazo, as farmacêuticas e as fábricas de armamento iriam ter quedas de 200% nos lucros. Seriam convocadas reuniões extraordinárias do G12 com manifestações violentas no exterior dos edifícios. Hum, não. Eu levaria uma carga de porrada primeiro, assinando uma declaração em como assumia que tudo aquilo que eu havia escrito era falso. Pois. O medo.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

[52] Comodismos

Vejo impérios a desabar todos os dias. Impérios sentimentais assentes em colunas de palha, mascaradas de betão armado. Onde toda a base não é mais do que um bloco de gelo pronto a derreter à primeira discussão mais acesa. Onde um simples grito faz cair paredes presas por pregos. A fachada renascentista nada mais é que uma máscara temporária que rapidamente se transforma num bairro de lata recheado de facas prontas a serem distribuídas. As pessoas envolvidas, envenenadas pelo monstro da rotina, tornam-se azedas e impacientes.
Vejo impérios de um, dois, cinco e dez anos a ruir. Hoje em dia, as relações entre um casal são infectadas por arrogâncias insípidas e egocentrismos radicais. O casal está por estar, e se aguentar mais tempo, algo estará mal, algo mudou, algo transformou o que de tão bonito havia. Nunca nos questionamos o porquê de ter sido bonito antes, reduzimo-nos a discutir o fracasso que é agora. O que mudou? Obviamente, quem está entranhado.

O avanço de apenas uma geração muda tudo. Caminhamos num sentido onde o casamento será banalizado e temporariamente mesquinho, contrariando relações sólidas e construídas em conjunto, na geração imediatamente anterior à nossa. Caminhamos num sentido onde nunca mais haverá cartas de amor, haverá e-mails de amor. Onde entregar uma flor é uma “paneleirice”. Onde discutir por um garfo a mais na mesa é claramente justificado. Onde viajar ao outro lado do Mundo por alguém é uma maluquice. Onde dá mais jeito aqui ao pé de casa do que fora da cidade.

O problema passa pelo facto de as relações, hoje em dia, darem jeito. Enquanto tudo for cómodo, não será seguramente feliz. Porque o cómodo não faz brilhar os olhos, não faz rebentar o coração da caixa torácica, não faz corar, não faz ficar sem palavras. Eu sempre preferirei ficar sem palavras do que dizer “amo-te” quando não o sinto: o acto mais cínico, mais cruel e, infelizmente, o mais repetido hoje em dia na nossa sociedade.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

[51] Páginas

A constância com que abrimos e reabrimos o livro da vida mostra a nossa adaptabilidade perante novas situações e a nossa resistência perante capítulos passados. Proteger as páginas seguintes, brancas como cal, expectantes de serem preenchidas com contos de fadas, é um dever exigível, mas nem sempre exequível. Limpar o pó à capa, cuja cadência do seu título se altera de tempos a tempos, revela segurança e auto-confiança. Reler páginas antigas não significa necessariamente revivalismos inadequados. Pode engrenar facilmente como um manual de instruções sobre o que fazer ou não fazer.

A vida não tem manual de instruções. Vive de segundos, de terceiros, de horas, de “ora isto, ora aquilo”. Vive de decisões. A coragem é aplicada em cada uma delas. Em 99% delas, nem sequer nos apercebemos dela, como quando decidimos aguentar a urina antes de viajar, quando se podia terminar desde logo a tarefa. De certa forma, tal envolveu coragem. Como é óbvio, também envolveu preguiça.

A coragem mostra os “fortes” e os “fracos”? Teoricamente, sim. Mostra os “vencedores” e os “perdedores”? Teoricamente, não. Mostra, na prática, quem está disposto a assumir as suas convicções perante um cenário rocambolesco, afirmando-se no cenário de guerra como alguém prestes a dar o corpo às balas. Defendendo as suas ideias, os seus sentimentos e o seu próprio ego.

Olho em redor neste largo e profundo planeta e vejo homens com H grande. Não muitos. Hão-de se contar pelos dedos das mãos e dos pés. Tu és um deles. Aquilo que enfrentas é espinhoso. Requer coragem. Tu tem-na. E quem tem para enfrentar aquilo a que já te propuseste, superará seja o que for que estiver do outro lado do Cabo das Tormentas. Peito feito, respirar fundo, enfrentar, reagir, aprender e a seguir? Como sempre, virar a página branca e escrevê-la.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

[50] Flashback

O infinito ou o finito de 2012. Claramente não é a chave para um sonho que é bem pior que um puzzle. Onde é necessário tempo, que poderá ser a cura ou a doença. E nas entrelinhas, continuo à procura, de um quadro onde as boas f€stas entrarão e boas previsões se proporcionarão. Entretanto, o escombro que é o destino nada mais é que uma tela branca. Os seus horizontes meneiam como um baloiço onde alguém se martiriza com alguns revivalismos. Quando o seu cérebro der sinal de fatal error, algo terá que reequilibrar a balança da vida. Poderão ser umas simples vides, estilo velha guarda. Mas ela, tramada como é, não o deixará. Toda a vida é um circo, onde uma miragem de entretenimento nos preenche a alma de vez em quando. E mesmo que reunamos vinte e oito pessoas numa missão, haverá sempre pelo menos dois vultos a fazer o grito do Ipiranga, prestes a entrar num paquete que os leve para bem longe daqui. O problema é que tudo isso não passa de um vírus nas suas cabeças. A nulidade das suas acções vai mostrar o filtro que a árvore dos seus próprios ideais não deixou semear. Tal apenas se assemelhará a um fractal de assunções, onde até um polvo esfomeado se poderá vangloriar como genial. O bilhete para a sua fortaleza digital em low-tech seria um tiro no silêncio. Onde um buraco negro seria aberto, abrindo precedentes para um trilema preocupante de cenários improváveis. Palmilho a palmilho, havemos de decifrar este enigma. Mas para já, um flashback.

O enigma deste texto nem sequer se assume como tal. No parágrafo anterior, limitei-me a dar uma sequência (i)lógica a todos os cinquenta títulos dos textos que já foram escritos, incluindo este. Quem acompanhou, certamente se lembrará de algumas palavras-chave. Quem não acompanhou, certamente entenderá o nível de alucinação que este autor injecta em alguns computadores. Escrevo este texto, surpreendido por ter chegado tão longe com cinquenta textos, mas sedoso de outros cinquenta. Para quem me lê, e que segue a minha página, deixo aqui o meu agradecimento. São vocês que me fazem continuar esta saga. Obrigado.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

[49] Enigma

Enigma! Algo desenhado para ser decifrado por outrem. Adoro enigmas. Fazem a mente trabalhar no sentido mais puro e mais construtivo do raciocínio. A psicanálise, o estudo do inconsciente. Até onde seremos obrigados a escavar até ao nosso inconsciente para resolvermos um enigma? Até onde ligaremos o complicómetro, quando podemos ter a resposta à frente da nossa cara? O desafio de um bom enigma passa pelo total alheamento relativo à complexidade imputada na sua construção. É essa curiosidade que dispara os nossos neurónios para umas boas horas de divertimento ou de total frustração.

Paradoxo! Divertimento ou frustração? Realidade ou fantasia? Acordar ou adormecer? Amor ou ódio? E que dois, estes. Aqui entra o discurso das “linhas ténues”. Com que razão podemos nós definir espaçamentos tão distintos entre conceitos? Da fantasia à realidade, muita água passa. Do amor ao ódio, uma gota de uma torneira mal fechada pelo senhor que não lavou as mãos como devia. Ou seja, temos aqui um paradoxo especial. Diferente de todos os outros. Porquê? Porque é mesmo assim.

Irracional! “Porque é mesmo assim?” Calminha. Clara ausência de explicação empírica e formatada, efectuada por via de relatório entregue a um superior. Ok. Não tanto. A racionalidade não implica entrega de relatórios, mas implica uma sequência lógica de pensamentos com deferimentos conclusivos e claros. Quem lê tal coisa, assume agora que a irracionalidade é um monstro peganhento e assustador. Não. A irracionalidade de muitos já fez mover muita água na melhor direcção. Irracionalidade como irreverência. Irreverência essa que explode dentro de mim neste momento, tentando decifrar o meu enigma.

O amor. Muitos já o definiram à sua maneira. Eu vou assumi-lo como um enigma eterno. O amor é o enigma que suplantará tudo e todos pelo carácter paradoxal da sua própria irracionalidade.