domingo, 20 de março de 2011

[43] Low-Tech

Boa noite, meus senhores e minhas senhoras. Aquilo que acabei aqui de fazer foi a demonstração, forçada ou não, de um dos valores mais importantes da nossa vida. A educação. Poderia, apesar de tudo, redundar a minha pessoa e o meu pensamento enumerando uma infindável lista de valores humanos que, numa sequência robótica, gostaríamos que todos nós tivéssemos, para que o Mundo fosse um lugar feliz.

Mas não o seria. O Mundo não se rege por peças encomendadas a uma fábrica, para produzir modelos de seres humanos à nossa escolha. Se pudesse metaforizar, e certamente que o farei, esmurraria um pão o número de vezes suficientes para que restassem apenas migalhas. E nenhuma delas seria igual a uma outra. Tal como o ADN, tal como a impressão digital, falando de aspectos mais técnicos.

Lidar com pessoas é fácil. Conversar, beber, rir, ouvir, andar, beijar, chicotear. Afastando-me repentinamente de tendências sadomasoquistas, estabelece-se aqui outro parâmetro. Lidar com pessoas é difícil. Compreender, interpretar, aprender, memorizar, conjugar, agir. Acções como estas já podem ser mais dificilmente executáveis pelo comum dos mortais. E porque, anteriormente, referi a tecnologia, alguma razão haverá para que o iPad 2 já tenha surgido poucos meses depois do primeiro lançamento. Ou que o iPhone já vá na quarta versão. O problema é que os que apenas conseguem actuar segundo os parâmetros “fáceis de lidar” nunca se aperceberão que ainda são como um comum Nokia 3310. Que, por ser bom, ainda se mantém vivo, mas que não evolui porque não tem capacidade para tal. E onde nem uma actualização de software poderá salvá-lo da resignação.

A evolução faz parte da psique humana como a aprendizagem diária do que é a vida e do que ela tem para nos ensinar. E como não pode haver uma sequência robótica, resta-nos aplicar os valores que nos foram transmitidos e aqueles que adquirimos. Os que não conseguiram, esforcem-se que ainda vão a tempo. Os que não querem e que machucam os que podiam transmitir, resignem-se. Mas ainda têm uma solução. Telefonem para quem ainda tem um Nokia 3310. Ainda há alguns.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

[42] Fortalezas

Os tempos marcam posições, reflectem ideais e deixam marcas de água incrustadas numa sociedade que, ao longo dos séculos, tem sido capaz de mostrar aquilo que é correcto. E por mais persistente que seja a ideia, ou conservador o regime, ou ditatorial o homem-forte de um país, todas as fortalezas de poder caem. Caiu o Império Romano, caiu o III Reich, caiu Mussolini, caiu Salazar. Caiu mais recentemente Mubarak no Egipto, pontapeado por uma população em fúria que pararia um país inteiro no tempo enquanto o seu contestado líder não fosse exilado. Fica a clara ideia de que, por mais intransigente que seja a personalidade de uma só pessoa, a justiça vem ao de cima e outros interesses se sobrepõem a um capricho criado num cérebro ávido de poder.

A cedência, transposta para o nosso dia-a-dia, molda as pessoas que somos. Uma cedência não nos torna corações de manteiga. Nenhuma cedência não nos torna vilões até ser provado o contrário. A evolução do ser humano passa pela adaptação da fugaz realidade que criamos filosoficamente ao longo do nosso crescimento. Quem se recusar a aceitar novos ideais, será espezinhado na multidão que foge em pânico de um recinto de espectáculos em chamas. Pode ser capaz de se levantar, pode não o ser. Quem se levantar, estará mais aberto a aceitar a dureza da vida. Porquê? Pelo óbvio. Porque já sofreu na pele com uma bota da Timberland.

Todas estas situações, apesar de absurdas, são infinitamente recorrentes no mundo actual. Relembrando num passado recente, o macabro aumento de arrombamentos de portas trancadas após ter sido encontrada uma senhora falecida numa casa abandonada anos e anos depois. O desleixo apenas é curado com a tragédia. Para passar a ser uma anedota.

Eu cedo. Não sou coração de manteiga. Não sou vilão. Não sou espezinhado. Não arrombo portas. Mas também não as tranco.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

[41] Bilhete

Um bilhete debaixo da porta poeirenta. Silêncio. Curvo-me, esperançoso. Sem remetente. Sem destino. Um esgar de desconfiança. Um brilho nos olhos. Um rasgar cortante no vazio. Restos a caírem no soalho. Um convite indiscreto. Provavelmente desmesurado. Certamente tentador. Indubitavelmente intranquilo. Uma chávena de café quente. Duas colheres de açúcar. Um golo com duas frases lidas. Uma pausa para outras três. Incredulidade com um tremor nas minhas mãos ásperas. Um sofá. Não posso ler isto de pé. Arrebatador mas confuso. Revolucionário mas escondido na trincheira. Saudoso mas mascarado. Alegre mas convencido.

A fortuna da vida traz-nos momentos em que aquilo por que sempre pensámos esperar pareça redundante no momento em que não o devia ser. A impaciência de anos transforma-se em insignificância, pelas muralhas que resistiram ao dia-a-dia comum. A expectável felicidade de certo momento reduz-se ao modo de como a tornar possível, secundarizando-a. A inércia que atinge o nosso ego no momento em que as nossas moléculas deviam estar drogadas de adrenalina é intrigante. Mas como corrigir tudo isso? Que raio de seres somos nós?

Já me esquecia do bilhete. Escrito à mão. Caligrafia irreconhecível. Mas arriscaria feminina. Sem data de envio. Escrito há anos? Não me parece. Actual. Ponto final. Penso em algo que faça sentido. O café acabou. Não, nada disso. Objectivo? Não sei. Talvez saiba. Talvez o tenha à frente dos meus olhos. Mas não quero acreditar nele. Conteúdo? Algum. Arrasta-me para dentro do papel. Muito, então. Quero responder. Não tem remetente. Isso já sabia. Inconsequente. Amachuco o bilhete. Atiro-o. Em cheio na jarra japonesa. Volto a apanhá-lo. Desembrulho-o. Quero saber. O remetente? Não.

Quero saber como destruir o bilhete. Rasgando? Mutilando? Queimando? Não. O bilhete. Aquele que, após eu o ter lido, já estava guardado na minha memória para a eternidade.

sábado, 22 de janeiro de 2011

[40] Genial

Toda e qualquer acção relacionada com arte trás, consigo atrelada, a palavra “criatividade”. Uma originalidade inventiva testemunhada e avaliada pelo público-alvo, que tanto a pode colocar no pedestal como engoli-la sem apelo nem agrado. A máquina trituradora a que, mais formalmente, chamamos sociedade, define as suas tendências artísticas e culturais por movimentos massificados. E aí, o papel do artista e de meses infindáveis de suor e neurónios queimados chega ao fim como quem estala os dedos. O artista falhou. Porquê? Por não ser criativo? Não. Por não ser original? Não. Infelizmente, a criatividade do artista tem dois caminhos. Ou se adequa à limitação intelectual da sociedade e se restringe a ela, ou abarrota-a abrindo uma pequena brecha nesse muro de Berlim, incutindo uma nova ideia e abrindo novos caminhos. Como todos sabemos que a segunda opção apenas acontece em 1% dos casos, é triste verificar que a originalidade do artista está subjacente como “a ideia de um maluco”.

Procuremos novos caminhos para alcançar os nossos objectivos. Quem se cingir ao Mundo existente e o continuar a proclamar como extraordinário irá ser substituído no futuro, como uma peça estragada de um carburador de um Ford 300 em enferrujamento. Originalidade é motivo de questionamento, curiosidade e motivação. Criatividade é sonho, engenho e auto-confiança.

Não vivo sem criatividade. Vivo imaginando, nos recantos do meu ser, como seria eu sem imaginação. E em todos os casos, acabo morto. Vivo criando, entre os meus neurónios, cenários passíveis de serem concretizados. A realidade que vivo é limitativa e insuficiente perante a possibilidade maquiavélica de perspectivar o passo seguinte. Podem chamar-lhe criatividade ponderada, mas brindo a ela com todas as minhas forças.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

[39] Esfomeado

Fugaz e inolvidável. Uma lágrima ardente escorria-te pela face requintada, numa noite chuvosa e ritmada por tragos de luz incandescente. Voltavas costas, penosamente, enquanto me prostrava sentindo a água me percorrer o pescoço em fios ondulados a caminho do abismo. O meu rosto fechou-se em copas, pensando em espadas e vislumbrando ouros. Cada vez ias mais longe e era a minha altura de virar costas. A minha teimosia não me fez rodar os pés ensopados, e continuava a mirar uma das palmeiras do meu oásis. A minha consciência anunciava, tal amola-tesouras, uma constipação, bronquite ou repugnante faringite. No entanto, facilmente passaria uma semana penosa e febril na cama, desde que estes miraculosos segundos fossem vividos na sua plenitude. Mal te reconhecia o vulto, mas os meus olhos sentiam o teu respirar. Os meus ouvidos ainda ouviam a tua voz doce, entrelaçada com gotas de água a ribombar contra asfalto de má qualidade. Um trovão soava ao longe, mas maior era o que soava no meu subconsciente. Deixei de te ver e aí soube que se iniciava um novo ciclo. Onde apenas a memória perduraria. O cérebro teria de criar a tua imagem na minha cabeça para que eu te pudesse ver. Teria de esperar que os meus sonhos fizessem umas paragens nos bons velhos tempos. Onde convivíamos e desabafávamos enquanto víamos as folhas de Outono cair através da janela. Onde discutíamos a nossa vida ao ritmo orquestral de garrafas de meio litro de cerveja.

Chego ao dia de hoje e estás longe. Bem mais do que o trovão que na altura rebentou umas boas escalas de decibéis. Vives um mundo e eu limito-me a imaginar outro. Concretizas ambições enquanto eu continuo a coleccioná-las, tal caderneta de cromos. Nós podemos fazer o que bem entendermos, que eu posso fazer os meus olhos sentir o teu respirar, posso fazer os meus ouvidos reconhecer a tua voz doce. E, quando nos reencontrarmos, tudo vai parecer como um velho encontro de vizinhos que tomam café regularmente. Onde iremos ver as folhas de Outono cair e beber de meio em meio litro de cerveja.

A amizade é o melhor sentimento que se pode ter. Alimentada, torna momentos a valerem por uma vida. Esfomeada, pode tanto valer muito pouco, como valer bem mais do que a alimentada durante anos e anos a fio.