quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

[39] Esfomeado

Fugaz e inolvidável. Uma lágrima ardente escorria-te pela face requintada, numa noite chuvosa e ritmada por tragos de luz incandescente. Voltavas costas, penosamente, enquanto me prostrava sentindo a água me percorrer o pescoço em fios ondulados a caminho do abismo. O meu rosto fechou-se em copas, pensando em espadas e vislumbrando ouros. Cada vez ias mais longe e era a minha altura de virar costas. A minha teimosia não me fez rodar os pés ensopados, e continuava a mirar uma das palmeiras do meu oásis. A minha consciência anunciava, tal amola-tesouras, uma constipação, bronquite ou repugnante faringite. No entanto, facilmente passaria uma semana penosa e febril na cama, desde que estes miraculosos segundos fossem vividos na sua plenitude. Mal te reconhecia o vulto, mas os meus olhos sentiam o teu respirar. Os meus ouvidos ainda ouviam a tua voz doce, entrelaçada com gotas de água a ribombar contra asfalto de má qualidade. Um trovão soava ao longe, mas maior era o que soava no meu subconsciente. Deixei de te ver e aí soube que se iniciava um novo ciclo. Onde apenas a memória perduraria. O cérebro teria de criar a tua imagem na minha cabeça para que eu te pudesse ver. Teria de esperar que os meus sonhos fizessem umas paragens nos bons velhos tempos. Onde convivíamos e desabafávamos enquanto víamos as folhas de Outono cair através da janela. Onde discutíamos a nossa vida ao ritmo orquestral de garrafas de meio litro de cerveja.

Chego ao dia de hoje e estás longe. Bem mais do que o trovão que na altura rebentou umas boas escalas de decibéis. Vives um mundo e eu limito-me a imaginar outro. Concretizas ambições enquanto eu continuo a coleccioná-las, tal caderneta de cromos. Nós podemos fazer o que bem entendermos, que eu posso fazer os meus olhos sentir o teu respirar, posso fazer os meus ouvidos reconhecer a tua voz doce. E, quando nos reencontrarmos, tudo vai parecer como um velho encontro de vizinhos que tomam café regularmente. Onde iremos ver as folhas de Outono cair e beber de meio em meio litro de cerveja.

A amizade é o melhor sentimento que se pode ter. Alimentada, torna momentos a valerem por uma vida. Esfomeada, pode tanto valer muito pouco, como valer bem mais do que a alimentada durante anos e anos a fio. 

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