Um bilhete debaixo da porta poeirenta. Silêncio. Curvo-me, esperançoso. Sem remetente. Sem destino. Um esgar de desconfiança. Um brilho nos olhos. Um rasgar cortante no vazio. Restos a caírem no soalho. Um convite indiscreto. Provavelmente desmesurado. Certamente tentador. Indubitavelmente intranquilo. Uma chávena de café quente. Duas colheres de açúcar. Um golo com duas frases lidas. Uma pausa para outras três. Incredulidade com um tremor nas minhas mãos ásperas. Um sofá. Não posso ler isto de pé. Arrebatador mas confuso. Revolucionário mas escondido na trincheira. Saudoso mas mascarado. Alegre mas convencido.
A fortuna da vida traz-nos momentos em que aquilo por que sempre pensámos esperar pareça redundante no momento em que não o devia ser. A impaciência de anos transforma-se em insignificância, pelas muralhas que resistiram ao dia-a-dia comum. A expectável felicidade de certo momento reduz-se ao modo de como a tornar possível, secundarizando-a. A inércia que atinge o nosso ego no momento em que as nossas moléculas deviam estar drogadas de adrenalina é intrigante. Mas como corrigir tudo isso? Que raio de seres somos nós?
Já me esquecia do bilhete. Escrito à mão. Caligrafia irreconhecível. Mas arriscaria feminina. Sem data de envio. Escrito há anos? Não me parece. Actual. Ponto final. Penso em algo que faça sentido. O café acabou. Não, nada disso. Objectivo? Não sei. Talvez saiba. Talvez o tenha à frente dos meus olhos. Mas não quero acreditar nele. Conteúdo? Algum. Arrasta-me para dentro do papel. Muito, então. Quero responder. Não tem remetente. Isso já sabia. Inconsequente. Amachuco o bilhete. Atiro-o. Em cheio na jarra japonesa. Volto a apanhá-lo. Desembrulho-o. Quero saber. O remetente? Não.
Quero saber como destruir o bilhete. Rasgando? Mutilando? Queimando? Não. O bilhete. Aquele que, após eu o ter lido, já estava guardado na minha memória para a eternidade.

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