A incongruência do funcionamento do ser humano é tão complexa como inexplicável. Diria que aquilo que nós somos é uma total obra de arte que vai sendo preenchida ao longo dos anos por tintas e pincéis distintos. Estes podem assumir diversas tonalidades, mais ou menos robustas na atitude fascinada do pintor. Sempre associei a sequela da vida a um jogo onde, a cada nível, somos instruídos a estabelecer uma dicotomia no nosso cérebro entre duas portas. A vida limita-se a si própria como um conjunto de decisões, sequenciadas e entrelaçadas, onde cada um se obriga a lidar com as suas inerentes consequências.
Destino? Somente o dos comboios, barcos e aviões, entre outros. Esses estão impressos, num qualquer pedaço de papel reciclado, a tinta preta com letras extravagantes. São definidos na sua base existencial. O destino do ser humano não está impresso em qualquer lado. Não está dactilografado que A vai casar com B porque, dependendo dum equívoco, dum descuido ou mesmo duma estupidez do A, a B pode tomar a decisão de não concretizar o sonho de pais, avós, bisavós e trisavós em casar com A.
O ser humano é dono do seu próprio destino. Apercebo-me que existe uma grande blasfémia entre o que é destino e o que é uma coincidência. Esta última decorre de combinações estranhamente curiosas de decisões de diferentes seres humanos, que podem levar a que duas pessoas amigas de longa data permitam encontrar-se na mesma rua a 500 quilómetros de casa. Destino? Razoabilidade é tudo o que peço.
Nada mais evidente do que o caso de duas pessoas apaixonadas, vivendo a uma distância suficiente para que os pólos do íman que eles são não se toquem. Podem não se ver, não se tocar, não ouvirem a própria voz, mas a pequena aparição de um sinal, de uma imagem, reacendem a avalanche que é o nosso próprio interior. Aqui, poderíamos então, no sábio mito popular, afirmar que estariam destinados a estar juntos. Com certeza. Um ficará no seu sítio, estático como um calhau, e dirá à outra para fazer o mesmo. Não ficarão juntos.
O destino cria-se, o destino controla-se, o destino de cada um está nas nossas próprias manápulas. Construam o vosso próprio destino.

Sem comentários:
Enviar um comentário