Uma vida rotineira vive esperando. Pela quebra do monótono, pela
singela alteração que um pássaro a bater na janela nos pode mostrar que um dia
pode ser diferente. Apesar de tudo, há que perceber que o pássaro teve essa
capacidade, sem fazermos nada por isso. Um dia lúgubre e amistoso, no meio das
nuvens cinzentas e pachorrentas, pode mascarar-se de luz e vivacidade, sem
darmos conta. A magia que por vezes está escondida atrás dessas nuvens só é
descoberta pelos audazes. Os que conseguem afastar as nuvens e viver um dia
solarengo no meio de tanto cinzento pachorrento. Para gente cinzenta, chega o
mundo todo.
Descoberta constante equivale a surpresa constante. Que por si já
equivale a algo bem precioso: evolução. Que nos atormenta, que nos fascina e
nos consome e nos controla. Que nos mostra que há coisas que seguem o seu
caminho e não voltam. Que nos mostra que também há coisas que seguem o seu
caminho e voltam bem melhores que quando partiram. Evolução. Que afirma de
peito feito ser a base para tudo. Que, de soslaio, nos pisca o olho e nos
indica o caminho a seguir. Que nos faz tomar melhores decisões e vivê-las de
espírito livre e de coração aberto.
Conseguir descobrir o dia solarengo no meio das nuvens pachorrentas
demonstra adaptação. Capacidade para viver o que queremos viver. Coragem para
ver aquilo que está por detrás do óbvio. Curiosidade para descobrir o que vai
para lá do óbvio. Discernimento para contrariar o óbvio. Inteligência para
assumir que não existe óbvio. Genialidade para transformar o não óbvio dos outros
no nosso banal. Rebeldia para viver o não óbvio, contrariar estereótipos e
estampar um documento com um carimbo que mais ninguém possui. Posso vir a não
afastar as nuvens pachorrentas, mas já descobri que o dia solarengo está lá
atrás, para mim. Para contrariar o óbvio.

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