quinta-feira, 15 de setembro de 2011

[56] Mentalista

Um homem na casa dos 40 anos pavoneava-se pelas ruas de uma pequena cidade transmontana. Vestido de fraque, quase passava a ilusão de vir de um casamento. Os seus passos eram leves e sumptuosamente agradáveis. Inspirava o aroma a azevinho com tal prazer que transpirava sintomaticamente alegria e pureza. Acenava às pessoas que passavam, despejando-lhes o seu melhor sorriso. Entrando no supermercado, enchia o carro com os artigos que tinha previamente escrito numa lista, completando mais uma missão. Chegando a casa, cozinhou o seu próprio jantar e, satisfeito, viu a sua série preferida. Quando chegou o momento de dormir, pegou no seu manuscrito e inseriu-lhe mais um risco. Sentia-se privilegiado por viver e queria que todos o soubessem.

A pequena história de um senhor que, à primeira vista, parece um tolo que sorri por tudo e por nada, é na realidade um senhor que, semanas antes, descobriu que tinha um aneurisma não-operável alojado no seu cérebro. Este senhor é a prova mais que clara de que viver é um privilégio e que, ainda que a outro nível, nunca sabemos quando nem como acaba. A vida torna-se, dia após dia, cada vez mais curta, e nós temos nas nossas mãos a capacidade de definir o seu rumo. Por conseguinte, este rumo define-nos como pessoas caracterizáveis e moldáveis.

Quando se deitou, o senhor voltou a reviver o medo de fechar os olhos sob risco de nunca mais os abrir. Reflectiu. Relembrou aqueles que mais ama. Orgulha-se de ter seleccionado as pessoas que realmente importam. Não as que passaram a ignorá-lo até saberem da sua morte num jornal local. Sim, as que estão ao seu lado, preocupados, como peças de um motor complexo. Sim, as que assumem na sua cara sorridente que se vestirão de fraque com ele. Não, aquelas que nem sabem o que dizer perante a situação. Ele sorriu e, confiante, fechou os olhos.

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